Frankenstein, Harley-Davidson e Uber na mesma tomada

Duzentos anos depois, a Era da Eletricidade está de volta.  Mas agora ela fez as pazes com o romantismo. No dia 1º de janeiro de 1818, Frankenstein, de Mary Shelley, foi lançado. Um livro pioneiro na literatura de horror e ficção científica. Marcado por um forte romancismo, utilizava a energia elétrica como um chamariz para debater questões muito mais profundas da vida.

Na época, a eletricidade era o assunto preferido do meio acadêmico. Muitos estavam empolgados, estudando sobre a sua ligação com a vida. Por exemplo, o fato de descargas elétricas conseguirem “trazer alguém de volta à vida” gerava muitos debates. Não é por acaso que até hoje adoramos as cenas com o desfibrilador em séries e filmes. Nos episódios fictícios em hospitais, pulamos junto com os pacientes.

Tudo começou numa noite de tempestade, quando Mary Shelley, Percy Bysshe Shelley (que se tornaria marido de Mary) e o consagrado Lord Byron decidiram escrever histórias de terror inspirados naquela atmosfera de raios e chuva. Percy e Byron eram escritores reconhecidos, mas foi somente o texto de Mary, uma ilustre desconhecida até então, que ficou famoso. Parece que os rapazes não deram conta do recado. Tremendamente influenciado pelo romantismo e por sua crítica à racionalidade, o grande dilema que faz de Frankstein um clássico é o de que é preciso corresponder aos seus sentimentos para se sentir vivo. Para se viver, é preciso amar. Vou parar por aqui. Não darei spoilers, pois recomendo a leitura.

                Dois séculos depois, em 2018, a Harley-Davidson anunciou a sua moto elétrica, a Live Wire. O projeto já havia sido apresentado em 2014, mas vem sendo aprimorado e é promessa para o mercado em 2019. A H-D Live Wire vai de 0 a 100 km/h em 4 segundos e tem autonomia de 100 km, mas a marca ainda aposta em melhorias.

Longe de ser um Frankstein, o que mais chama a atenção na Live Wire é que, mais do que uma moto que não polui, ela chegou com a proposta de manter a paixão dos seus clientes, surpreendendo com o seu design que deixa claro essa harmonia entre o romance e a racionalidade, entre o clássico e o inovador. Sua posição de pilotagem mantém a característica das motocicletas da Harley-Davidson. Só nos resta saber se o coração sentirá falta do ronco do motor.

                Também em 2018, a Uber adquiriu a startup Jump, que trabalha com  compartilhamento de bicicletas elétricas, por um valor aproximado de U$ 100 milhões. Essa ação faz parte de um plano da marca de oferecer diferentes opções de mobilidade urbana. Já é de conhecimento de muitos que andar de bicicleta é se relacionar com a cidade de uma forma totalmente diferente da experiência que temos quando dirigimos um carro. E, para quem tem problemas no joelho ou preguiça mesmo, a bicicleta elétrica parece ser a solução ideal para quem quer melhorar o seu relacionamento com a cidade. Mais uma vez, a eletricidade aparece para reacender aquela chama do romantismo.

                O que percebo é que, independente do seu e do meu posicionamento político-ambiental sobre os combustíveis fósseis, parece que a eletricidade está ganhando força, e ao meu ver, vai transformar as nossas vidas. Fico feliz que isso esteja sendo feito por uma via mais romântica e menos puramente científica e racional. Por isso, acredito que carros, motos e bicicletas elétricas chegaram para ficar. No futuro, ao que tudo indica, quem ficará com cara de Frankenstein, no sentido popular da expressão, são aqueles que não se adaptarem e insistirem fazer barulho e soltar fumaça por onde passam.

Escrito por
Luiz Henrique Nascimento, redator – Qualicom